Ritual indígena, “Caminhos de Pachamama”, é realizado na abertura do CineOP
A 17ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, CineOP realizou sua abertura oficial nesta quinta-feira (23). Em meio ao forte frio da noite, a Praça Tiradentes recebeu o Ritual “Caminhos de Pachamama” que invoca, através do canto e da dança, a força e a coragem da Mãe Terra. O ritual foi realizado por representantes dos povos indígenas Kambiwá, Aranã Pataxó, Xukuru Kariri, Quechua e Aymara. A edição deste ano homenageia a dupla de cineastas Kuaray Poty (Ariel Ortega) e Pará Yxapy (Patrícia Ferreira), da etnia Mbya-Guarani, seus projetos no cinema indígena brasileiro.
A 17ª Mostra de Cinema de Ouro Preto inicia sua programação celebrando a produção audiovisual indígena
Com o uso de ervas, o ritual é uma entrega de respeito e honra à Mãe Terra e aos ancestrais. Jogadas ao fogo, essas ervas foram espalhadas pela Praça Tiradentes e utilizadas como uma espécie de benção nos presentes, enquanto eram entoadas músicas tradicionais dos povos indígenas do Nordeste, o Awê e o Toante.
Avelin Buniacá Kambiwá, indígena e integrante do CMACI, aproveitou o momento para chamar a atenção para uma questão importante que reflete nos povos originários.“O que a gente veio trazer aqui não é uma performance, não é uma cena de teatro, é a junção de várias etnias indígenas desterritorializadas, resultado de um processo que só vai piorar com o Marco Temporal, resultado de um processo de desapropriação de nossas terras, de esbulho e a gente foi parar em contexto urbano”.

A cerimônia multiétnica, realizada na abertura, foi formada por povos indígenas distintos, reunidos pelo Comitê Mineiro de Apoio à Causa Indígena (CMACI). “Na solidão de ser indígenas sem floresta, sem território, a gente se une a outros povos e esse é o resultado. Vários povos que lutam pela Mãe Terra, que lutam pela nossa dignidade. O terreiro, a gente traz no nosso peito”,completou Avelin.
Os presentes, ao final, também tiveram a oportunidade de fazer oferenda com ervas e, assim, um pedido à Mãe Terra. O momento ainda contou com uma pequena apresentação de Brisa Flow, artista ameríndia, componente da programação de shows do CineOP. Na sequência, os homenageados desta edição, a dupla de cineastas Kuaray Poty (Ariel Ortega) e Pará Yxapy (Patrícia Ferreira), da etnia Mbya-Guarani, foram acolhidos por aplausos. Com o Troféu Vila Rica em mãos, Kuaray Poty e Pará Yxapy são celebrados pelos seus projetos no cinema indígena brasileiro.
Homenageados

Kuaray Poty (Ariel Ortega) já está há 15 anos se dedicando ao cinema, buscando trazer, através do audiovisual, os registros das memórias e tradições dos povos indígenas. “O cinema permitiu muito a nós, povos originários, a contar nossa história, a recontar nossa história, porque ficamos invisibilizados durante muito tempo. Nossos antepassados não tinham oportunidade, como a gente tem hoje em dia, de conversar com vocês não-indígenas, de dialogar, de mostrar o nosso trabalho, de mostrar nossa cosmovisão”,declarou Poty durante a entrega do Prêmio.
Pará Yxapy (Patrícia Ferreira) também comentou sobre luta e reconhecimento. A cineasta manifesta a visão e o papel da mulher indígena, tanto nos seus trabalhos como na própria produção audiovisual.“Esse trabalho que a gente vem fazendo todo esse tempo, esse reconhecimento que a gente ‘tá’ recebendo, que a gente ‘tá’ ocupando esse espaço, que os nossos avós, nossas mães não conseguiram ocupar. Agora a gente tem esse espaço, esse momento ‘pra’ fazer esse diálogo com vocês, acho que isso deveria ter sido normal, mas hoje a gente ‘tá’ conseguindo esse espaço através de muita luta, através de muito trabalho”,afirmou.
Após 2 anos com o evento online, o CineOP retorna em formato online trazendo a celebração do cinema e produção audiovisual indígena. Como temática principal “Preservar, transformar, persistir”, o evento foi dividido em três eixos: Preservação, História e Educação. Uma grande tela, durante a abertura, exibiu os filmes de Poty e Yxapy, “Bicicletas de Nhanderu” (2011) e “Nossos Espíritos Seguem Chegando – Nhe’e Kuery Jogueru Teri” (2021), este último realizado durante a pandemia, quando Yxapy estava grávida.

Karla Rezende
Mar - Jun/2022











