Curta sobre identidade negra estreia em Ouro Preto nesta sexta

“Fios que Tocam o Céu” será exibido com sessões gratuitas e roda de conversa sobre identidade, pertencimento e representações étnico-raciais

Atualizado em 04/02/2026 às 16:02, por Joyce Campolina.

Sete pessoas negras se abraçam de costas e olham para um céu muito azul, todas elas estão com os cabelos crespos soltos

Uma história sobre identidade, ancestralidade e representação - Foto: Klevilaini

Na próxima sexta-feira, 06 de fevereiro, Ouro Preto recebe a exibição do curta-metragem “Fios que Tocam o Céu”, seguida de uma roda de conversa com estudantes e a comunidade, no Auditório Arthur Versiani, no IFMG. A atividade integra o evento “Cultura, cinema e diversidade étnico-racial” e contará também com a participação de integrantes do projeto PIDIC - Cabelos que Contam.

Com duas sessões, das 11h às 12h da manhã e à noite, das 19h às 20h, o evento propõe refletir sobre identidade, pertencimento e representações étnico-raciais por meio do cinema, a partir de narrativas que partem da experiência de pessoas negras e de suas expressões culturais.

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Um filme que nasce da vivência

Dirigido por Klevilaini, estudante de Artes Cênicas (Licenciatura) pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), o curta surge da relação da diretora com o próprio cabelo crespo. Fora das narrativas sobre transição capilar, sua experiência parte de outro lugar, o de uma mulher negra que nunca alisou o cabelo, mas precisou aprender a lidar com sua textura e aparência em uma sociedade marcada pelo racismo estrutural.

 

A minha perspectiva em relação ao meu cabelo é de um outro lugar, não daquele de uma pessoa que passou pela transição capilar, mas de uma pessoa que teve que aprender a lidar com a textura e a aparência do próprio cabelo nessa sociedade racista que chamamos de Brasil

Klevilaini

 

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A partir dessa vivência, Klevilaini passou a abordar temas como cuidado, identidade e autoestima em seu canal no YouTube, ativo desde 2021. As reflexões se intensificaram em 2024, quando decidiu raspar o cabelo, vivenciando um processo de conflito e reconstrução da própria imagem.


Nesse momento que eu raspo o cabelo, eu me vi muito nesse processo de transição, de tentar me reconhecer com um cabelo diferente, de tentar me adaptar e cuidar de um cabelo de um formato que eu nunca tinha visto em mim antes

Klevilaini


 

Segundo a diretora, esse período evidenciou o papel do próprio cabelo como um elemento central da expressão individual e da ancestralidade.“Vieram muitas reflexões de como nosso cabelo é um afirmador de identidade, algo crucial para a nossa expressão, não apenas esteticamente, mas de ancestralidade.”

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Do TCC ao cinema

Um tcc que surge da reflexão de que como ser uma pessoa de cabelo crespo molda a sua identidade e percepção no mundo. - Foto: Klevilaini

As reflexões resultaram em seu TCC, que veio para discutir o cabelo como afirmador de identidade na infância. O curta-metragem surge como um desdobramento desse estudo, com o objetivo de apresentar ao público a diversidade de cabelos crespos e de vivências negras no Brasil.

“Fios que Tocam o Céu” acompanha uma menina que, ao cuidar do próprio cabelo, passa a escutar histórias de outras pessoas negras. A narrativa é conduzida por uma rádio comunitária e construída a partir da combinação de poesia, depoimentos reais e imagens do cotidiano.

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Para a diretora, o filme também é resultado de um processo coletivo. “É um filme gravado de maneira muito simples, mas que me enche de orgulho, porque tive o apoio das minhas amigas, dos meus pais e dos meus irmãos. Todos contribuíram contando a sua experiência com o cabelo.”

 

Reconhecimento fora do país

Em 2025, o curta foi exibido na 6ª Bienal da Conferência da ASA, em Cabo Verde, na Ilha de Santiago. A apresentação internacional proporcionou novas leituras sobre a obra, especialmente a partir do olhar de pessoas negras que vivem em um contexto diferente do brasileiro. “Foi muito interessante mostrar o vídeo para pessoas negras dentro do continente africano, que não têm essa relação com o racismo da mesma forma que a gente tem aqui no Brasil”, relata Klevilaini.

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Ela destaca que, no Brasil, a construção de resistência em torno do cabelo crespo está diretamente ligada ao passado colonial e escravocrata. “Essa resistência precisou ser construída aqui, porque esse contexto nos desumanizou, raspou nossos cabelos e nos fez acreditar que eles não são bonitos.”

 

Primeira exibição no Brasil

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“Acredito que esse curta me abriu e vai abrir muitas portas. É muito importante termos referências de pessoas parecidas com a gente”, afirma a cineasta. 

A sessão em Ouro Preto marca a primeira exibição do curta no Brasil. Para Klevilaini, apresentar o filme na cidade tem um significado especial.“Ouro Preto é uma cidade que me acolheu desde o primeiro momento. Fazer essa primeira exibição aqui me traz esperança de novos caminhos e possibilidades. É muito importante termos referências de pessoas parecidas com a gente.”

A entrada é gratuita, com inscrições abertas ao público e terá emissão de certificado.


Joyce Campolina

É graduanda em Jornalismo pela UFOP, apaixonada por Jornalismo Cultural e Político, fotojornalismo, audiovisual e por contar histórias que precisam ser ouvidas