MPF esclarece polêmica sobre criação de museu em Bento Rodrigues

*

Atualizado em 14/09/2019 às 00:09, por Luiz Loureiro.

Moradores de Bento Rodrigues, atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão, participam de reunião sobre criação de museu de território em Bento Rodrigues

Moradores de Bento Rodrigues, atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão, participam de reunião sobre criação de museu de território em Bento Rodrigues - Foto: Luiz Loureiro/Agência Primaz

O Procurador do Ministério Público Federal, José Adércio Leite Sampaio desmentiu, nesta nesta quinta-feira (12), que um Termo de Compromisso e Responsabilidade Socioambiental (TCRS) esteja prestes a ser assinado para desapropriação e tombamento das ruínas de Bento Rodrigues, para instalação de um “museu de território”. A declaração foi feita na noite desta quinta-feira (12), durante reunião realizada no Espaço Coliseu, em Mariana, com a participação de autoridades municipais, estaduais e federais, diante de muitos dos atingidos pelo rompimento da Barragem de Fundão, ocorrido em 5 de novembro de 2015.

/apidata/imgcache/9d1cc4d87f3e18600bcfc01eed619e3a.jpeg?banner=postmiddle&when=1770340657&who=345

A reunião emergencial, inicialmente agendada para sexta-feira (13), foi realizada para esclarecimentos a respeito da divulgação de minuta de acordo, publicada pela Agência Pública no dia 10 de setembro, informando a intenção dos Ministérios Públicos Federal e Estadual de celebrar acordo com “as empresas responsáveis pelo desastre – Samarco, Vale, BHP Billiton –, a prefeitura de Mariana e o governo de Minas para desapropriar os imóveis do distrito mais devastado pela tragédia que completa quatro anos no próximo dia 5 de novembro” (Clique aqui para acessar a matéria completa).

Não tem nenhum TAC assinado, não tem nenhum TAC a ser assinado. (…) Nenhum termo será celebrado que não tenha a participação de vocês atingidos

José Adércio, Procurador Federal

/apidata/imgcache/152af5fc9ed45eead4ac63b9b27253fe.jpeg?banner=postmiddle&when=1770340657&who=345

A reportagem da Agência Pública, “Proposta de desapropriação surpreende moradores de Mariana”, informava que a assinatura do termo estaria prevista para o dia 21 de setembro e trazia declarações de Mônica Santos, integrante da Comissão dos Atingidos de Bento Rodrigues, inconformada com o anúncio da desapropriação: “É uma segunda perda, e essa de uma forma pior porque, se ela vir a acontecer, a gente sabe que nunca mais vamos ter aquilo de volta. E a gente corre um sério risco de nem poder frequentar lá mais como hoje. Pra mim está sendo até uma sensação pior do que o próprio dia do rompimento”. Além disso a reportagem remetia para um link de acesso a um documento, possivelmente elaborado pelo Ministério Público Federal e pela Coordenadoria das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural de Turístico (Ministério Público do Estado de Minas Gerais), com amplo detalhamento do processo de desapropriação, desenvolvimento de estudos e projetos, bem como das obrigações das entidades envolvidas (Prefeitura de Mariana e mineradoras) para implantação do Museu de Território (ou Museu de Memória Sensível) em Bento Rodrigues. (Clique aqui para acessar o documento)

/apidata/imgcache/29dbe2d859113a8d297f76f1275030e8.png?banner=postmiddle&when=1770340657&who=345

Dr. José Adércio, procurador federal, apresenta aos atingidos o posicionamento dos órgãos federal e municipal envolvidos na polêmica de desapropriação de Bento Rodrigues - Foto: Luiz Loureiro/Agência Primaz

Em sua manifestação, Dr. José Adércio classificou como “ruído” a divulgação da matéria e do documento, enfatizando que não participou de nenhuma reunião em que tenha sido discutido prazo para assinatura de qualquer tipo de termo de ajustamento de conduta. “Houve sim o esforço de uma colega do MP [Ministério Público] de Minas, no sentido de se tentar aproveitar o momento que estamos vivendo para colocar a Samarco contra a parede, e dizer: você tem que garantir, no espaço de Bento, um espaço que mostre para a presente e para as vindouras gerações, a tragédia que você, Samarco, cometeu”, afirmou o procurador federal.

/apidata/imgcache/772be4290fdea147e45f144ef300fe65.jpeg?banner=postmiddle&when=1770340657&who=345

Dique S4

Além da desapropriação dos terrenos do distrito de Bento Rodrigues, um aspecto que causa grande preocupação aos atingidos é a questão do descomissionamento do dique S4, construído emergencialmente em 2016 para contenção de rejeitos que poderiam impactar ainda mais a bacia do Rio Doce. Autorizado pelo Decreto 500, de 21/09/2016, o dique provocou o alagamento de várias propriedades particulares em Bento Rodrigues. Na prática, o decreto do então governador Fernando Pimentel estabeleceu uma “requisição administrativa” de 55 propriedades, mediante a possibilidade de posse temporária, sem desapropriação, com pagamento de indenização pelo uso por três anos.

/apidata/imgcache/c4174d5a49d766513eaf1d561bbebd82.jpeg?banner=postmiddle&when=1770340657&who=345

Dique S4, construído em 2016,com indicação da área alagada no distrito de Bento Rodrigues - Imagem: Reprodução/Samarco

A grande questão levantada pelos atingidos é que a autorização de construção do dique S4 previa o descomissionamento (retirada dos rejeitos, demolição do dique e revitalização do local) em três anos, prazo que termina no dia 21 de setembro. Procurador do Estado de Minas Gerais, com atuação junto à Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Dr. Adriano Brandão afirmou, durante a reunião desta quinta-feira (12), que a “requisição administrativa” não será renovada, mas não detalhou os mecanismos à disposição do Estado para garantir o descomissionamento ou punir a empresa.

/apidata/imgcache/0324fe39cc503624c5c3a09355916b08.jpeg?banner=postmiddle&when=1770340657&who=345

Vicente Mello, Diretor-Presidente da Aecom do Brasil, expõe para os atingidos a situação de segurança das estruturas da Samarco e as possibilidades de descomissionamento total ou parcial do dique S4 - Foto: Luiz Loureiro/Agência Primaz

Também participando da reunião, o Diretor-Presidente da Aecom do Brasil, Vicente Mello, fez um relato da atuação de sua empresa como assessora do Ministério Público, abordou os aspectos relacionados à segurança das estruturas de contenção de rejeitos da Samarco e detalhou as opções de descomissionamento total ou parcial do dique S4. Elogiando o trabalho da Aecom e a ajuda prestada pela empresa ao Ministério Público Federal e Estadual, Dr. José Adércio disse que a auditoria das estruturas da Samarco “dá uma garantia de que nós não teremos uma tragédia dentro da tragédia”. “Eu diria para os senhores, como eu diria para minha filha: Eu não fico debaixo dessa barragem, nem a jusante dessa barragem, de jeito nenhum!”, acrescentou, ressaltando o aspecto relativo do conceito de segurança.

/apidata/imgcache/8d6a8af0440e37cb081093b7fbf8fad4.png?banner=postmiddle&when=1770340657&who=345

Tombamento de Bento Rodrigues

/apidata/imgcache/b1c0541e4e2744f43b5953b21e86eaba.jpeg?banner=postmiddle&when=1770340657&who=345

Presente à reunião como representante do Conselho Municipal de Patrimônio Cultural (COMPAT), o Dr. Bernardo Campomizzi Machado declarou que o órgão recebeu, na terça-feira (10), o dossiê de tombamento de Bento Rodrigues elaborado pelo ICOMOS (sigla que identifica, em inglês, o Conselho Conselho Internacional de Monumentos e Sítios, “International Council of Monuments and Sites”). Afirmou que o COMPAT dará prosseguimento aos trabalhos para definição de como se dará o uso do território do distrito de Bento Rodrigues e que o tombamento provisório, aprovado na reunião realizada em 04/02/2016, estabeleceu diretrizes gerais para proteger o território de qualquer investida de outras entidades, ressaltando que compete ao conselho a deliberação sobre como será esse tombamento. “Todo esse processo será participativo com os atingidos. Utilizaremos, sem dúvida nenhuma, o dossiê elaborado pelo ICOMOS, mas o conselho não tem a obrigação de seguir as diretrizes estabelecidas nesse dossiê”, esclareceu Bernardo Machado, lembrando que outras questões são prioritárias, entre elas a reparação civil, o fato de que Bento Rodrigues está na área de auto-salvamento das estruturas de contenção da Samarco e que os órgãos competente têm a obrigação de dar encaminhamento ao descomissionamento, tanto de Germano quanto do dique S4.

/apidata/imgcache/e42b196283e1ed0aa69afd8449b2b4b7.jpeg?banner=postmiddle&when=1770340657&who=345

Samantha de Oliveira Nery, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável (Escola de Arquitetura da UFMG) e integrante do ICOMOS, fez pronunciamento a respeito do trabalho realizado e a leitura de nota assinada pelo Prof. Leonardo Barci Casttriota. No texto, traduzindo a posição do ICOMOS, o coordenador da pesquisa ressalta que o dossiê propõe o tombamento do sítio de Bento Rodrigues, “respeitados os valores e significados da comunidade atingida, (..) no intuito de constituir-se um Sítio de Consciência, que atue como uma lembrança e um alerta para que a atividade minerária no Brasil assuma novas posturas responsivas que coloquem acima de qualquer propósito o respeito às populações locais e ao meio ambiente onde atuam”. Destaca ainda que “uma das diretrizes de gestão e intervenção do referido Dossiê propõe a criação de um Museu de Território em Bento Rodrigues, bem como a construção de um memorial da tragédia, junto a esse museu, (…) necessariamente comunitário”, afirmando que o tombamento não é obrigatoriamente vinculado à desapropriação. “Pelo contrário, ao criar um regime de corresponsabilidade entre os proprietários e o Estado, o tombamento possibilita arranjos complexos para a gestão dos bens tombados”, ressalta a nota.

Prefeitura de Mariana

Conduzida pelo Dr. Guilherme de Sá Meneghin, Promotor de Justiça de Mariana, a reunião contou também com a presença, no início, do vice-prefeito de Mariana, Newton Godoy. No decorrer das discussões o Prefeito Duarte Júnior compareceu ao evento, desculpando-se pelo atraso devido a compromisso em outra cidade e respondeu a questionamentos dos atingidos em relação à posição da administração municipal. Duarte negou ter se reunido com a Samarco ou ter sido procurado por ela para discutir o assunto. “Não iremos tomar nenhum tipo de decisão ouvindo a empresa Samarco. Iremos sim, tomar decisões ouvindo o Ministério Público, ouvindo órgãos do Estado e, principalmente, como bem disse o Dr. José Adércio, ouvindo os atingidos, decidir o que fazer e buscar, sim, a melhor solução”, declarou o prefeito.

No encerramento do encontro, o promotor Guilherme Meneghin reafirmou a disposição das autoridades em ouvir os atingidos, considerando ter sido a reunião uma excelente oportunidade para que os envolvidos expusessem suas reclamações, considerações e críticas. “Podem ter certeza, nós vamos caminhar daqui pra frente para a construção de uma solução melhor possível”, finalizou o promotor.


Luiz Loureiro

É jornalista graduado pela UFOP, fundador, sócio proprietário e editor chefe da Agência Primaz de Comunicação.