Memórias ancestrais de Mariana em “O Livro dos Minerais”

Livro, vídeo-documentário e série de podcasts vão ser lançados neste sábado (24), no Museu Casa de Alphonsus de Guimarães

Atualizado em 23/02/2024 às 09:02, por Marina Ferreira.

Mo Maie é autora da obra “Mariana, o Livro dos Minerais”. Foto: Divulgação/Mo Maie

“Mariana, o Livro dos Minerais” é o terceiro volume do memorial griô “Árvores, memórias e reflorestamentos”, organizado por Mo Maie desde 2021, e busca conectar pessoas, territórios, pesquisa, criação artística, filosofia africana, agroecologia e patrimônio imaterial, trazendo as comunidades de territórios atingidos de Mariana e Barra Longa como protagonistas. O trabalho teve participações especiais do DJ Afrobool, na direção e captação de áudio do vídeo-documentário; e dos artistas Lil Tim e Bomblack, na trilha sonora. A jornalista Paula Teodoro contribuiu na direção da série de podcasts e na coordenação das redes, mídias e design.

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Memórias ancestrais e reflorestamento cultural

Um dos objetivos da obra é valorizar os indivíduos griôs, que são guardiões da memória e da tradição de um povo ou comunidade. Essas memórias são transmitidas por meio da oralidade, considerada patrimônio imaterial a ser preservado, e a prática tem uma missão ancestral. Mo Maie buscou mapear a presença de griôs nas comunidades de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo, Gesteira e Barra Longa para cumprir o objetivo.

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Além disso, o reflorestamento cultural é outro tema valorizado na obra, trazendo a ideia de preservar memórias e tradições das comunidades como forma de reconstruir e reflorestar, simbolicamente, o que foi destruído pelo rompimento da barragem de Fundão, em 2015.

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Divulgação do evento de lançamento da obra. Foto: Divulgação/Djalo Nomad

Conheça Mo Maie

A autora do projeto, Mo Maie, é escritora, musicista, artista visual, podcaster, arte-educadora e pesquisadora de música do transatlântico afroameríndio. Com 42 anos, é natural de Mariana (MG) e vem de uma família com forte tradição musical. Formou-se na área de comunicação em 2003 e, no mesmo ano, iniciou suas viagens pelo mundo, começando por Barcelona, na Espanha. Nesse momento, iniciou seus trabalhos de contra-colonização.

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Em 2007, foi morar em Marrocos, na África, e conheceu a realidade dos griôs, passando a entender a comunicação em uma perspectiva afrocentrada. Sua jornada pela África permitiu que começasse a pesquisar a musicalidade das regiões do continente e a produzir instrumentos musicais. De volta à Mariana, em 2009, realizou um filme-documentário sobre a realidade musical da cidade, em torno da cultura popular. Mo Maie afirmou que passou a olhar a cidade como um manancial de riquezas e seus trabalhos se aprofundaram quando, em 2010, foi morar em Salvador (BA) e deu origem ao blog“Terreiro de Griôs”.

Em 2020, quando morava no Senegal, na África Ocidental, iniciou as transcrições de conversas que teve ao longo de sua jornada e deu início à série “Árvores, memórias e reflorestamentos”, que vai ter o terceiro volume lançado neste sábado (24), no Museu Casa de Alphonsus de Guimarães. Em 2022, retornou à Mariana. “Mariana já era outra cidade, além de eu ser outra pessoa. Foi um reencontro com a cidade e a nova realidade”, afirmou.

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O Livro dos Minerais

O rompimento da barragem de Fundão fez com que Mo Maie refletisse como as vidas da região poderiam ser afetadas e como as culturas e os saberes permaneceriam.“‘O Livro dos Minerais’ partiu daí, de tentar entender, a partir do que aconteceu: a gente pode morrer ou pode regenerar alguma coisa?”, e completou dizendo que sentiu a necessidade de quebrar barreiras para que as comunidades marianenses se reconhecessem como um povo afrodescendente.

Quanto ao convite aos convidados que fazem participação especial na obra, DJ Afrobool, Lil Tim e Bomblack, Mo Maie disse que buscou trazer pessoas que, de alguma forma, estão lutando e denunciando diversos tipos de opressões, como o racismo, o machismo e o ecocídio. A artista finalizou afirmando que seu trabalho, para além de valorizar a ancestralidade e resgatar as tradições das comunidades atingidas pelo rompimento da barragem, procura honrar suas próprias raízes enquanto pessoa mestiça.


Marina Ferreira

Jornalista, graduada pelo Instituto de Ciências Sociais e Aplicadas (ICSA) da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Enquanto estudante trabalhou em assessorias de imprensa na área política e estagiou na Agência Primaz de agosto/2023 a abril/2024.