Lenda da Noiva de Furquim vira horror gótico em Mariana

“Peregrinação”, Longa-metragem de Luciane Trevisan explora zonas de instabilidade e lendas locais em uma narrativa de "estranheza" e delírio

Atualizado em 28/01/2026 às 17:01, por Lui Pereira.

Fotografia em preto e branco, em plano médio, de uma mulher jovem com expressão serena e um leve sorriso. Ela tem cabelos escuros e ondulados, e usa uma tiara delicada com detalhes de pedrarias e flores sobre a cabeça. Ela veste o que parece ser um traje especial, com um colar fino no pescoço, e segura algo felpudo e branco à frente do corpo, possivelmente um buquê. O ambiente é externo e rústico, com colunas de pedra ao fundo. Fortes traços de chuva caem diagonalmente em frente à câmera, criando uma atmosfera cinematográfica e sensível. À direita, aparece parte do rosto e o ombro de um homem vestindo uma camisa xadrez, sugerindo que ela está acompanhada.

O longa-metragem tem 80 minutos de duração e conta com recursos de acessibilidade - Foto: Divulgação

O cenário cinematográfico da região dos Inconfidentes ganha um novo e intrigante capítulo neste sábado (31). O Cine Teatro Municipal de Mariana recebe, às 19h, a estreia de Peregrinação, uma ficção que mergulha no horror e no surrealismo para explorar os mistérios da identidade feminina e do território mineiro. Com entrada gratuita, a obra é uma produção do Instituto Dragão Fantástico e marca a consolidação de um cinema autoral feito a partir das paisagens e mitos locais.

 

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Uma travessia entre o mito e o horror

Livremente inspirado na lenda da Noiva de Furquim, a narrativa acompanha Isabel, uma jovem noiva cujos preparativos para o casamento são interrompidos pelo contato com objetos carregados de simbolismo: um vestido de noiva ligado a uma tragédia antiga e uma aliança. O que se segue é uma "travessia gótica" onde o desejo e a morte se entrelaçam, arrastando a protagonista para um estado de delírio e desaparecimento.

Segundo a sinopse, a produção investiga "zonas de instabilidade da identidade feminina" por meio de rituais sociais e objetos como espelhos e capelas, transformando o tempo em um movimento circular.

 

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O surrealismo como portal criativo

Em entrevista exclusiva à Agência Primaz, a diretora e roteirista Luciane Trevisan destacou sua afinidade com a estética do filme. 

O conto já é bem surrealista. A verossimilhança está muito presente, mas ele vai para um lugar do surrealismo, que é um lugar que eu gosto muito, é um lugar que me chama muito a atenção, você cria um outro mundo, um mundo que não é o mundo real, um mundo que você pode fazer o que você quiser

Luciane Trevisan, cineasta

Para a diretora, essa escolha estética permite explorar o insólito para refletir sobre heranças simbólicas que atravessam o imaginário coletivo. Sobre o impacto da narrativa, Luciane define: "É um trabalho muito interessante do ponto de vista da estranheza".

 

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Estética da lentidão e a influência de Tarkovsky

A influência do mestre russo Andrei Tarkovsky também se faz presente na construção visual e rítmica da obra. Luciane explica que buscou uma dilatação temporal nas cenas para provocar uma experiência sensorial no espectador. "Eu acho que o jeito que ele [Tarkovsky] coloca as coisas... aquele jeito de te mostrar a cena com tanta leveza e tanta lentidão, que você entra naquilo, aquilo vai, vai", afirmou a diretora.

A técnica de direção buscou extrair o máximo da interpretação orgânica. "A minha proposta era gravar as cenas assim, com essa dilatação, de deixar o ator, deixar, deixar, deixar. O rosto vai se transformar (...) a postura, né? E aí a gente fez isso", acrescentou Luciane.

 

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Cinema autoral e acessibilidade em Mariana

O filme, que possui 80 minutos de duração e classificação indicativa de 16 anos, integra um projeto de desenvolvimento de um cinema autoral interessado em explorar a natureza física e arquitetônica das cidades históricas e suas ruínas.

A sessão de estreia contará com recursos de acessibilidade, incluindo intérprete de Libras e audiodescrição durante a exibição. Após o filme, o público poderá participar de um bate-papo com os atores e a equipe, conhecendo mais detalhes sobre o processo criativo e a produção realizada na região. O acesso será por ordem de chegada, sem necessidade de retirada prévia de ingressos.


Lui Pereira

É jornalista, fotojornalista e contador de histórias. Um cronista do cotidiano marianense.