Estilo é emancipação – A boneca Barbie autista
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Ouça o áudio de "Estilo é emancipação - A boneca Barbie autista", da colunista Andreia Donadon Leal:
Em 2015, escrevi uma crônica sobre a boneca Barbie, utilizando sua imagem para desconstruir a figura desse sonho de consumo. Durante anos, escrevi cartas ao Papai Noel pedindo a Barbie, que se tornou um sonho compulsivo. Eu sonhava com a boneca e via colegas na escola com ela. A Barbie simbolizava poder, status, sendo um dos brinquedos mais desejados entre as meninas. Finalmente, em um Natal, minha mãe me presenteou com algo inesperado: a minha emancipação.
Agora, em 2026, me surpreendo com o lançamento da Barbie autista, equipada com fones de ouvido e outros itens recomendados para crianças do espectro autista. Reforça estereótipo ou emancipa? Discrimina ou identifica? Essa nova versão traz à tona o necessário debate da inclusão das crianças autistas, que nem sempre se dá pelo reforço a estereótipos, mas pela compreensão do tempo que essas crianças necessitam para processar informações e produzir respostas, ou pela diferença na realização de tarefas, por caminhos criativos, em vez dos determinados pelas fórmulas prontas. De qualquer forma, recobrei lembranças da minha infância, quando a Barbie ocupava grande parte dos meus pensamentos, mas foi a similar que me emancipou.
Os tempos mudaram. A internet revolucionou a forma como vivemos e nos conectamos. Hoje, observo a vida dos outros em tempo real, e essa experiência influencia nossos desejos. O que antes não fazia sentido nos meus sonhos, agora se torna parte dos meus anseios ao ver as vidas alheias nas redes sociais. E nessa rede de falação de comportamento alheio, a nova Barbie deu uma folga às mães de bebês reborn. O que essa iniciativa comercial realmente busca? Essa boneca representa todos os níveis do espectro autista? Como incluir uma representação neurodiversa de suporte nível 2 ou 3?
Não estou aqui para criticar os fabricantes ou a sua nova proposta. O que realmente me motiva a escrever é a memória afetiva que tenho pela Barbie.
Como mencionei em meu artigo de 2022: “a Barbie continua nas vitrines, hoje mais incrementada e modernizada; nas capas de cadernos e estojos escolares, mas não em meu acervo de bonecas. Ela agora está na capa do meu caderno de rascunhos, lembrando-me que não é possível ter tudo na vida. A indústria e a propaganda tentam, com avidez, fazer as pessoas desejarem compulsivamente produtos, como se fossem necessidades fundamentais. Como disse Aristóteles, estilo é a emancipação do seu próprio ser.”
O espectro autista é tão diverso que não se resume no bloqueio sonoro entre fones de ouvido; talvez descobertas sonoras, nesses mesmos fones, sejam música suave ativando cognição difusa.

Andreia Donadon Leal
Andreia Donadon Leal é Mestre em Literatura, Especialista em Arteterapia, Artes Visuais e Doutoranda em Educação. Membro da Casa de Cultura- Academia Marianense de Letras, da AMULMIG e da ALACIB-MARIANA. Autora de 18 livros









