CineOP: Marisa Orth reflete sobre comédia, cinema e trajetória
Roda de conversa promoveu encontro com Marisa Orth e Anna Muylaert e discutiu o humor feminino no cinema brasileiro
Marisa Orth e Anna Muylaert em roda de conversa no primeiro dia da Mostra de Cinema de Ouro Preto - Foto: Larissa Antunes/Agência Primaz
Cléber Eduardo, mediador e curador da temática histórica do CineOP, iniciou a conversa contextualizando a homenagem à Marisa Orth no eixo histórico da mostra, que este ano destaca a presença de mulheres na criação e protagonismo de obras cômicas entre 1973 e 2022. A curadoria reuniu 21 filmes, sendo 10 longas e 11 curtas-metragens, criados majoritariamente por mulheres.
Marisa Orth e Anna Muylaert compartilharam suas experiências em comum. Durante a conversa, elas abordaram o ambiente artístico paulistano dos anos 1980, com destaque para a efervescência cultural gerada pelo fim da ditadura militar e pela cena teatral, musical e cinematográfica da época.
A conversa abordou também a relação entre comédia e tragédia na dramaturgia brasileira, marcada por uma fusão entre elementos cômicos e dramáticos. A atriz relatou sua trajetória artística, passando pelo teatro, televisão e cinema, e destacou a importância da geração à qual pertence, citando colegas como Fernanda Torres, Andréa Beltrão e Regina Casé.

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Anna Muylaert falou sobre os desafios enfrentados por sua geração no cinema, marcados pelo período de estagnação do setor durante os anos 1990, e sobre a importância de seu trabalho na TV Cultura como espaço de formação em dramaturgia. A diretora também abordou o uso do humor como estratégia narrativa e destacou sua preferência por um humor construído a partir do desconforto, do erro e da ironia.
A roda de conversa também incluiu reflexões sobre o uso do humor como ferramenta crítica e como meio de resistência em um contexto social marcado por desigualdade. As artistas discutiram a recepção do humor na cultura brasileira e os desafios de se fazer comédia em tempos marcados por debates sobre representatividade e politicamente correto.
Orth defende a democratização da cultura e cinema brasileiros
Em coletiva, a atriz Marisa Orth revisitou sua trajetória e analisou os desafios do humor contemporâneol. A homenageada comentou sobre sua carreira, o papel da mulher no humor, os impactos da crítica, e sua relação com o teatro, o cinema e as políticas culturais.
Orth foi enfática ao abordar a desigualdade no acesso à cultura no Brasil. Segundo a atriz, ainda prevalece o estigma de que cinema, teatro e artes plásticas são “coisa de elite”. Para ela, a cultura precisa ser democratizada com urgência: “No Brasil é má distribuição de renda e má distribuição de cultura. Entende? ‘Quem sou eu, para ir no festival?’ É uma luta muito grande no nosso país”, alega a artista.
A atriz destaca que a promoção de eventos que fomentem cultura e entretenimento de forma gratuita é fundamental. “A importância da gente democratizar a cultura, parar com esse papo de que cultura é só coisa para rico. Isso atrasa o país e atrasa o artista. Você regular a cultura assim, acho sacanagem” afirma.
Questionada sobre o papel da mulher no humor, Marisa Orth destacou que a comédia é diretamente ligada à inteligência e que as mulheres ainda enfrentam barreiras para serem reconhecidas como engraçadas. “Estamos vencendo isso. Acho que conquistar o humor é um sinal de que a mulher tem que estar tendo sua inteligência respeitada”, afirma.

Ouro Preto e curso de cinema
Segundo Marisa, é uma honra ser homenageada por uma mostra de cinema gratuita, especialmente em uma cidade como Ouro Preto. Para a atriz, “Ouro Preto é muito luxuoso, né? Eu lembro de todas as vezes que eu vim aqui. Graças a Deus foram várias, é mágico mesmo, é clichê, não tem como falar de Ouro Preto sem falar de magia, de encantamento, de história”.
Orth destaca a beleza da cidade, descrevendo-a como um “estúdio a céu aberto” e reforça “Acho que aqui devia ter uma faculdade sem cinema. Eu acho que aqui tem tudo a ver com cinema.”

Trajetória de Marisa Orth
Marisa Orth nasceu em São Paulo, em 21 de outubro de 1963. Formou-se em Comunicação e Artes na Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), e logo se destacou como atriz de teatro, televisão, cinema e também como cantora. Sua carreira começou nos palcos, com sólida formação teatral e uma afinidade especial por musicais, gênero no qual se consagrou em montagens como Vitor ou Vitória, A Família Addams, O Musical dos Musicais e Romance Volume II.
Na televisão, alcançou enorme popularidade interpretando Magda, no humorístico Sai de Baixo (1996–2002), um dos programas mais lembrados da comédia brasileira. Também participou de novelas e séries como Bang Bang (2005), Sangue Bom (2013), Éramos Seis (2019), e integrou o elenco da série Toma Lá, Dá Cá (2007–2009).
No cinema, atuou em filmes como Durval Discos (2002), dirigido por Ana Muylaert, Sexo Amor & Traição (2004), Trair e Coçar é Só Começar (2006), Irma Vap – O Retorno (2006) e Zoom (2015), além de trabalhos em curtas e participações especiais em documentários e produções independentes.

Larissa Antunes
É graduanda em Jornalismo na UFOP e estagiária na Agência Primaz de Comunicação. Possui interesse por jornalismo cultural, radiojornalismo, audiovisual, fotojornalismo, movimentos político-sociais e expressões artístico- culturais.













