Cartas pra Mãe: Passar pelos dias ou esperar que os dias passem?
Estamos, há mais de um ano, riscando números do calendário, não é? Aguardando que o tempo, senhor de cura, amenize o mundo lá fora e ajude a consertar o que temos dentro de nós. Os medos. As angústias.
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Mãe,
Passar pelos dias ou esperar que os dias passem?
Parece um ano perdido, não é, Mãe? Pelos projetos adiados, pela rotina que tem a mesma cor e os mesmos tons, pela tristeza de quem lida com a doença, pela falta dos que não sobreviveram a ela.
Nos agarramos, então, a todo e qualquer detalhe. A ligação de um amigo, assistir a algo bonito na TV, um curso novo, uma flor que nasce no jardim, uma comida que gostamos. Um sinal, mesmo distante, de que as coisas vão melhorar. Um dia.
A senhora se lembra de quando, lá no começo, pensávamos que o mundo “sairia melhor de tudo isso”? Era uma esperança de que aprendêssemos a lição, seja ela qual fosse.
Mas o aprendizado se mostrou mais duro que a gente pensou, não é? Que tipo de aula é essa, por vezes tão cruel? Que tipo de gente é essa que insiste em dizer que estamos no mesmo barco, quando alguns nem salva-vidas têm?
Agora, o que vejo, Mae, é que só queremos sair de tudo isso. Se melhores ou piores, já não importa tanto assim. Ou importa?
A benção de quem ainda sonha.

Jamylle Mol
Jamylle Mol é jornalista e marianense








