Cartas pra Mãe: E aquela história de que aprenderíamos a lição?

A senhora viu que começaram a vender restos de peixe em um supermercado? Num açougue, colocaram a placa “os ossos são vendidos e não dados”. Me dá um nó na cuca entender certas coisas, sabe, Mãe. Entender que, no mesmo planeta, há um jogador de futebol que ganha milhões e há pessoas “comendo” ossos. Há milionários viajando pro espaço e crianças desnutridas.

Atualizado em 09/10/2021 às 11:10, por Jamylle Mol.

Foto: Skitterphoto/Pexels

Mãe,

Me dá um nó na cuca entender certas coisas, sabe, Mãe. Entender que, no mesmo planeta, há um jogador de futebol que ganha milhões e há pessoas “comendo” ossos. Há milionários viajando pro espaço e crianças desnutridas.

Entender que, no mesmo país que exporta carne, famílias inteiras economizam pra comprar pés de frango. Entender que, enquanto a gente equilibra os nutrientes pra uma dieta da moda, milhões (sim, milhões) de pessoas não têm do que se alimentar.

A pobreza nunca deixou de existir no Brasil. Mas há muito tempo a desigualdade social não era tão extrema, tão explícita, tão escancarada. Na TV, estão ensinando a substituir o feijão e o arroz. Feijão e arroz, Mãe. E gás. E tantas outras coisas.

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Não sairíamos melhores da pandemia? Não seriamos mais empáticos, pensando no outro, entendendo que (não) estamos todos no mesmo barco? Pra onde foram todas as promessas de aprendermos a lição?

Temos memória curta, Mãe. Nos esquecemos tão facilmente de tantas coisas. Nos esquecemos da tristeza de ver sinais lotados de pedidos pouco depois de virarmos a esquina. Nos esquecemos das filas para ganhar ossos minutos depois que desligamos a TV. Nos esquecemos.

E esse nó no peito continua, assim como a sensação de não poder fazer muito, diante de tanto.


Jamylle Mol

Jamylle Mol é jornalista e marianense