Audiência Pública discute concessão da BR-356 em Mariana

Evento vai ser realizado no Centro de Convenções Alphonsus de Guimaraens

Atualizado em 15/12/2024 às 20:12, por Luiz Loureiro.

A audiência foi convocada pelo Governo de Minas Gerais, em publicação do Diário Oficial de Minas Gerais, edição nº 241, de 06/12/2024 - Imagem: Reprodução/SEINFRA

Participação popular na Audiência Pública

Local de realização da audiência pública na próxima quinta-feira (19) – Foto: Luiz Loureiro/Arquivo Agência Primaz

De acordo com o “Regulamento de Participação na Audiência Pública”, disponibilizado no site da Secretaria de Infraestrutura, Mobilidade e Parcerias(SEINFRA), a participação na Audiência Pública é aberta a todos os interessados da sociedade, não exigindo cadastro prévio para participar apenas como ouvinte. Entretanto, para que haja a possibilidade de manifestação oral, os(as) interessados(devem registrar essa intenção até 17:30 do dia útil anterior à realização do evento, encaminhando as seguintes informações por e-mail: nome completo; endereço de e-mail; telefone pessoal para contato; e entidade que representa (se for o caso).

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Encaminhando corretamente todas as informações acima, o(a) interessado(a) vai receber uma mensagem de confirmação para manifestação oral no endereço eletrônico informado. O direito da manifestação oral durante a Audiência Pública terá duração de 3 (três) minutos por pessoa previamente cadastrada, respeitado o limite temporal máximo da sessão pública e as regras de organização da Audiência, cabendo a cada credenciado direito a uma única manifestação oral, obedecida a ordem de inscrição e impedida a duplicidade de manifestação.

As manifestações orais serão registradas de forma a preservar a integridade de seus conteúdos e poderão servir de subsídio ao aprimoramento da proposta, sendo a Audiência Pública transmitida ao vivo pelo Canal da SEINFRA no Youtube, sem a possibilidade de interação online via “chat”.

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Justificativa da concessão da BR-356

Zema autorizou a realização da consulta pública da concessão da BR-356 em solenidade acontecida, em novembro, na Praça Minas Gerais (Mariana) – Foto: Luiz Loureiro/Arquivo Agência Primaz

O processo de concessão da BR-356 já vem sendo desenvolvido desde 2020, inclusive com a realização de estudos e audiências públicas, mas sofreu descontinuidade devido à constatação de elevado custo e transferência, para os usuários, de tarifas consideradas exorbitantes.

Com a conclusão do Acordo de Mariana, que instituiu a repactuação do processo de reparação e compensação dos danos produzidos pelo rompimento da barragem de Fundão, em 2015,foi incluída uma verba de R$2 bilhões para aplicação em obras de manutenção e melhorias da BR-356, cuja autorização de abertura de consulta públicafoi assinada pelo governador Romeu Zema, em cerimônia realizada em Mariana, no final de novembro.

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Na publicação feita no Diário Oficial de Minas Gerais, na última terça-feira (10) o secretário de Estado de Infraestrutura, Mobilidade e Parcerias, Pedro Bruno barros de Souza apresentou as razões para concessão da BR386 – “Lote 07 – Ouro Preto – Mariana”, necessária para a “realização de investimentos com a integração de recursos públicos e privados para a recuperação, manutenção e conservação permanente da malha rodoviária do Estado de Minas Gerais é fundamental para o fortalecimento de sua infraestrutura e o crescimento econômico do Estado”, que atravessa o território de 11 municípios (Nova Lima, Rio Acima, Itabirito, Ouro Preto, Mariana, Acaiaca, Barra Longa, Ponte Nova, Urucânia, Piedade de Ponte Nova, e Rio Casca, totalizando 406 mil habitantes.

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Economicamente, os municípios possuem expressiva representação nos setores de serviços, especialmente turismo, comércio e indústria de mineração, cuja contribuição para o PIB mineiro de 2024 é aproximadamente 5%”, registra a justificativa, destacando que “a região apresenta características topográficas e geotécnicas complexas e com vários trechos de curvas críticas, que exigem respostas técnicas e de engenharia altamente especializadas e vultosas”, o que exige a medida de concessão, como “solução para viabilizar os recursos necessários para a melhoria da infraestrutura rodoviária da região”, aliando “maior conforto e segurança aos usuários com modicidade tarifária”.

Projetos e estudos de viabilização da concessão da BR386

Juntamente com toda a documentação técnica, levantamentos e projetos preliminares, o processo de concessão da BR-356 disponibilizou um vídeo, contendo uma maquete eletrônicado trecho das rodovias envolvidas no lote, que inclui também parte da MG-262 e MG-329.

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A partir da esquerda, ao alto, em sentido horário, identificação do início e fim dos trechos da BR-356 e da MG-262 envolvidos no processo de concessão rodoviária – Fotos: Reprodução – fotomontagem: Luiz Loureiro/Agência Primaz

O projeto de concessão da BR-356 mais de 5 bilhões de investimentos em obras de infraestrutura divididas em quatro frentes de trabalho, realizadas em ordem cronológica e/ou com superposição de etapas.

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A frente de serviços iniciais, recuperação e manutençãotem início com o objetivo de promover a regularização da pista; recapeamento; eliminação de afundamentos e trincas, renovação da pintura, substituição de placas e barreiras, capina, roçada e limpeza do sistema de drenagem. A etapa de recuperaçãoprevê a troca de pavimento e do reforço da estrutura do asfalto, de forma a atingir os parâmetros de desempenho previstos no contrato de concessão. A etapa de manutenção contempla o conjunto de obras e serviços necessários para manter os padrões de desempenho da rodovia, bem como a manutenção da segurança, da estrutura e da limpeza das rodovias. Já a frente de conservaçãoengloba um conjunto de operações preventivas, rotineiras e de emergência realizadas com o objetivo de preservar as características técnicas e físico-operacionais do sistema rodoviário e das instalações operacionais.

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A frente de obras de melhorias e ampliação de capacidadeé composta por obras para garantir segurança viária e fluidez do tráfego, com destaque para a implantação de duplicação; terceiras faixas; acostamentos; intercessões (rotatórias, passagens inferiores); passarelas e ponto de ônibus, buscando aumentar a capacidade das vias para suportar o crescimento no volume de tráfego, com objetivo de promover segurança viária e permitir maior velocidade média nas rodovias, fluidez do tráfego e a consequente redução do tempo de deslocamento dos usuários. Nessa frente está prevista a construção de 67,4km de duplicações; 39,7km de terceiras faixas; 64,2km de novos acostamentos; o contorno em Cachoeira do Campo, com extensão de 7,3km; 6,8km de readequação de vias marginais e mais de 21km de correção de curvas críticas.

A frente de serviços operacionais, por sua vez, compreende as atividades de implantação e operacionalização de equipamentos; instalações; sistemas e infraestruturas de operação rotineira do sistema rodoviário. Os investimentos previstos nesta frente preveem serviços de atendimento como socorro mecânico; atendimento de incidentes; sistema de informações aos usuários; sistema de reclamações e sugestões dos usuários; atendimento médico com ambulância e equipes locadas em duas bases operacionais (BSO).

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Adicionalmente, a concessão da BR-356 vai incluir a fase de melhorias regulatórias tais como a adoção do sistema automático de livre passagem (free flow), buscando promover, o aprimoramento da infraestrutura do sistema rodoviário concedido.

Plano de Negócios da concessão da BR-356

Ponto de instalação de uma das praças de pedágio no km 62,6 da BR-356 – Foto: Reprodução/SEINFRA

Os estudos de economia e negócios da concessão da BR-356, de acordo com a apresentação feita em Mariana, me novembro, previam um custo estimado de R$5 bilhões, sendo R$ 2 bilhões alocados ao estado pelo acordo de repactuação, com a pretensão de concretizar as obras em 5 anos, contados da obtenção da licença ambiental, buscando o restante do investimento por meio de contrato de concessão e realizando a sessão de licitação do projeto e assinatura de contrato já em 2025.

De toda a documentação disponibilizada, em densa linguagem técnica, jurídica e econômica, percebe-se que os números são inferiores aos anunciados, pelo menos em termos dos recursos investidos pela empresa ou consórcio que vencer a licitação da concessão da BR-356, uma vez que a cobrança das tarifas de pedágio poder ser implementada já a partir os 14 meses de vigência do contrato, ainda na fase da frente de serviços iniciais, recuperação e manutenção.

A previsão é de implantação de quatro praças de pedágio, sendo duas no trecho de concessão da BR-356 (km 40,7 – município de Nova Lima e km 62,6 – município de Ouro Preto), uma no km 30,3 da MG-262, no município de Acaiaca e a última no km 125,4 da MG-329, no município de Ponte Nova.

Na conclusão dos estudos relacionados ao plano de negócios, chegou-se ao valor de tarifa de pedágio para a categoria 1 (automóveis leves) no valor de R$ 5,59 (cinco reais e cinquenta e nove centavos) por pórtico de cobrança para trechos em pista simples e de R$ 7,83 (sete reais e oitenta e três centavos) para trechos de cobertura em pista dupla, sendo prevista a reclassificação tarifária para os pórticos localizados nos municípios de Nova Lima e Ouro Preto, nos anos 6 e 9, respectivamente. A reclassificação tarifária corresponde a um aumento de 40% no valor da tarifa de pedágio quando do término das obras de duplicação dos seus respectivos trechos de cobertura.

O valor da tarifa de pedágio a ser paga pelo usuário varia conforme a categoria de veículo, sendo sujeitos os usuários ao pagamento da tarifa segundo os multiplicadores de tarifa de cada categoria de veículos (1,5 para automóveis leves com reboque, de 2 a 9 para veículos comerciais em função do número de eixos, e 0,5 para motos). O projeto prevê, ainda, o acréscimo de 25% para os usuários que não optarem pelo uso de sistemas que permitam o pagamento automático, mas com a possibilidade de redução da tarifa para usuários frequentes.

Pontos não esclarecidos do processo de concessão da BR-356

Evolução da Receita Tributária Bruta (RTB0 ao longo dos 30 anos de duração da concessão da BR-356 – Imagem: Reprodução/SEINFRA

Elaborados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e pelo Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), com a participação de consultores em função das especificidades técnicas, os estudos e relatórios chegaram ao valor de R$6,372 bilhões de receita arrecadada com as taxas de pedágio ao longo dos 30 anos de concessão da BR-356.

Entretanto, a compreensão de todo o conceito e a engenharia financeira envolvida no processo é de difícil assimilação por leigos, em função da complexidade do processo e, principalmente, devido ao pequeno prazo disponível para o estudo aprofundado da documentação, agravado com as rígidas e restritivas normas de participação contidas no regulamento da audiência pública.

A reportagem da Agência Primaz, em uma análise preliminar, levantou algumas questões que mereceriam esclarecimentos à população de Mariana e dos outros municípios envolvidos.

A primeira questão refere-se ao anunciado repasse de R$2 bilhões provenientes do acordo de repactuação. A tabela de fluxo de caixa da concessão da BR-356 estabelece que R$1,5 bilhões, serão repassados pelo Governo de Minas Gerais ao longo de 8 anos de vigência do contrato. Entretanto, a modalidade de licitação vai determinar como vencedora a proposta que apresentar maior desconto nesse repasse, arcando com a complementação do valor corresponder ocorrerá conforme definido no contrato de concessão, de forma parcelada, conforme evolução das obras.

Entretanto, na Tabela 3, do mesmo documento, intitulado “Plano de Negócios Referencial”, o repasse do valor de contraprestação está diluído em 19 anos, a título de contraprestação dos serviços relacionados nas frentes de trabalho previstas.

Adicionalmente, está previsto o repasse de quase R$872 milhões a título de indenizações pagas pelo poder concedente por compartilhamento de riscos. Dessa forma, o valor total repassado seria R$2,372 bilhões, ao final dos 30 anos de concessão, sem que seja definida a origem desse acréscimo de quase R$400 milhões.

Outro ponto importante é que, embora esteja prevista a aplicação de R$2,418 bilhões para investimentos de longo prazo (CAPEX) e R$2,803 bilhões para despesas operacionais (OPEX), indicando um suposto investimento global de R$5,221 bilhões, dos quais R$3,221 seriam investimentos alocados pela empresa que vier a operacionalizar a concessão da BR-356.

A análise rasa desses números é enganosa, já que, com a cobrança das taxas de pedágio a partir do 14º mês de contrato, segundo a tabela de fluxo de caixa, haveria déficit operacional acumulado de R$446 milhões até o final do 8º ano, passando a ser positivos (diferença entre receitas provenientes de arrecadação tarifária e de repasses e totais gastos com impostos, CAPEX e OPEX). Portanto, somente esse valor de fluxo negativo total poderia ser considerado efetivamente como investimento, resultando em início de retorno já a partir do 9º ano da concessão e superavit total de R$2,261 bilhões em 22 anos.

Dessa forma, é válido questionar se os valores estabelecidos para as tarifas de pedágio seriam realmente os mais adequados, ressaltando que, ao contrário de outras concessões, esse não será o critério para a seleção da proposta para conseguir a concessão da BR-356.

Merece ainda destaque a ausência de menção, pelo menos até onde foi possível perceber no estudo preliminar da extensa documentação analisada pela reportagem da Agência Primaz, de qualquer menção à forma de cálculo e intervalo de tempo para reajustes ou adequações econômicas dos valores das tarifas, o que poderia, pelo menos em tese, proporcionar maior segurança á população envolvida quanto à capacidade de continuar utilizando as rodovias, sem contar o pequeno prazo (14 meses) entre a assinatura do contrato e o início da cobrança, com a realização apenas de serviços iniciais no período sem cobrança.


Luiz Loureiro

É jornalista graduado pela UFOP, fundador, sócio proprietário e editor chefe da Agência Primaz de Comunicação.